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CULTURA

A origem do nome Lourinhã

        Muito se tem escrito acerca da origem do nome de Lourinhã, sem que até hoje se tivesse chegado a qualquer conclusão. Entre as várias teses que alguns investigadores avançaram, duas houve que reuniram maior consenso. Uma onde se diz que o topónimo Lourinhã vem de Lourien, terra natal do cruzando francês  D. Jourdan, eu recebeu de D. Afonso Henriques esta vila como recompensa pelos altos serviços prestados na conquista de Lisboa. Outra onde se diz que teria sido o Casal Lourim, porventura baptiado pelos Romanos como o nome de Laurus ou Laurinum, que teria dado origem à Lourinhã.

        Nem uma nem outra hipótese são verisímeis. Relativamente à primeira, Lourien, leia-se um documento escrito em Latim que se encontra em IAN/TT, Leitura Nova, Estremadura, Livro II, fls. 234 v- 235v, para se verificar que este argumento não tem fundamento:

"...Hec est carta de foro quem Jurdanus concedentejilustri Rege dono allfonso dedit populatoribus de lauriana tam presentibus quam fruturis..."

Segundo a carta, quando D. Afonso Henriques ofereceu a D. Jordão a povoação (populatoribus) de Luariana, facilmente se depreende que esta já existia e como mesmo o nome. Em latim moderno, Lauriana é a junção do substantivo lauro ao sufixo ana, que indicia procedência. Temos assim que Lauriana se traduz em  "terra de Lauro" tal como  Cíceroiana é relativo a Cícero.

Em relação à segunda hipótese, "Casal de Lourim", uma vez que por esse lugar, como adiante veremos, não passava a via que atravessava a região oeste da Lusitânia, logo nunca poderia estar ligado à origem da Lourinhã.

Como nasceu então Lauriana?

        No tempo do Marco Aurélio, imperador de Roma que viveu entre 121 -180 d.C. existiam na Lusitânia duas localidades que, pela sua situação geográfica e estratégica, assumiam um lugar de relevo: o porto de mar da serra da mendiga (Atouguia da Baleia), que mais tarde, no inicio da nacionalidade, viria a ser oferecido por D. Afonso Henriques à ordem dos Templários, onde a partir daqui começaram a fazer a ligação marítima entre a Europa e a Terra Santa (Anais do Convento de Cristo, Tomar), e, a civita (cídade) de Eburobrittium, recentemente redescoberta junto a Obidos.

        Segundo o Prof. Jorge de Alarcão in "Portugal - As Origens à Romanização", Eburobrittium era governador por catorze senadores, entre os quais Caio Júlio Lauro, que teria uma villa (residência) muito perto de Miragaia, que como veremos, só poderia ter sido a Quinta da Moita Longa. 

        E porquê?

        A via Romana que ligava Lisboa a Atouguia e que depois seguia para Eburobrittium, não passava pela Lourinhã pelos simples facto de haver um grande braço de mar que ia por terra possível era o seguinte: passando a Marteleira ia-se em direcção a Miragaia, atravessava-se o rio da Gaia (hoje o rio do Toxofal) e seguia-se em linha recta até ao porto de mar da Atouguia. E na Quinta da Moita Longa, banhada pelo rio da Gaia (Toxofal) vamos então encontrar os tão almejados vestígios da villa de Caio Júlio Lauro: A lindíssima muralha romana que cerca os jardins; as lajes à volta dos tanques, feitas à base de óxidos de ferro e recobertas de engobe vermelho não vitrificado; um marco feito com os mesmos materiais cuja marca do oleiro é a letra "v", que toponómicamente significa villa; as pedras calcinadas das antigas termas (a água em contacto com as pedras calcinadas, lança vapor); a mata de loureiros quecerca o outro lado dos jardins (o loureiro era a árvore que os romanos consagravam a Apolo, o deus do Sol); e por fim, o Arco da Quinta da Moita Longa, onde não poderia faltar uma magnífica representação do Sol e que serviu como inspiração a tantos oetas e escritores que por aqui passaram.

        Relembro por exemplo Gil Vicente, quando ao escrever o "Tempo de Apolo", a dado passo diz que o Sol nasceu na Lourinhã. 

        Essa foi sem dúvida a villa de Caio Júlio Lauro, o mesmo que entre os anos 121 - 180 d.C. viria fundar a Lourinhã, a terra de Lauro, Lauriana.             

 

Fonte: Alvorada, 23/03/2003

Por: António Luís Botto e Sousa Quintans

 

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